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Revista Científica da Ordem dos Médicos
Introdução: A assistência médica a doentes evacuados de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) em Portugal é prestada ao abrigo de protocolos políticos de evacuação, embora muitos cheguem por meios próprios (MP). O estudo visa caracterizar os doentes PALOP internados numa Unidade de Pediatria de Primeira Infância (UPPI), comparando os doentes evacuados ao abrigo destes protocolos oficiais com os doentes que chegam por MP, e refletir sobre a complexidade médica e os desafios associados.
Métodos: Realizou-se um estudo observacional e retrospetivo de todos os doentes PALOP (< 18 anos) admitidos numa UPPI de um hospital terciário em Portugal, Lisboa, entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022. Foram recolhidos dados demográficos e clínicos dos registos clínicos. Os participantes foram divididos em doentes evacuados (DE) e MP.
Resultados: Foram incluídos 71 doentes, 76,1% no grupo DE e 23,9% no grupo MP. As admissões aumentaram ao longo dos anos, com máximo em 2022. A maioria era do sexo masculino (62%), com mediana de idade de 16 meses. A idade foi estatisticamente superior no grupo MP comparativamente ao DE (31 meses vs 16 meses, p = 0,026). A maior parte dos DE era oriunda de São Tomé e Príncipe e de Cabo Verde, enquanto a maioria do grupo MP era de Angola. O grupo DE apresentou maior prevalência de doenças cirúrgicas, cardíacas e neurocirúrgicas, enquanto o grupo MP apresentou diagnósticos neurológicos e hematológicos. A intervenção cirúrgica foi necessária em 74,6% dos casos, sendo mais frequente no grupo DE (p = 0,008). Foi necessário seguimento em consultas em 95,8% dos casos e 84,5% necessitaram de apoio social. A taxa de mortalidade foi de 84,5/1000, superior no grupo MP (117,6/1000). Apenas 9,9% dos doentes regressaram ao país de origem.
Conclusão: As admissões de crianças dos PALOP aumentaram entre 2018 e 2022, a maioria com doenças complexas em ambos os grupos, com necessidade de cuidados médicos diferenciados, internamentos prolongados e reinternamentos. A taxa de mortalidade foi considerável, e poucos retornaram ao seu país. Esses achados salientam a necessidade de uma melhor coordenação entre os países para oferecer uma assistência médica sustentável, tanto do ponto de vista dos pacientes/famílias quanto do sistema de saúde.
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