Experiência de Onze Anos em Centro Único sobre Admissões em Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos após Tentativas de Suicídio em Portugal

As tentativas de suicídio graves em adolescentes que exigem cuidados intensivos representam um importante desafio de saúde pública, associado a elevada morbilidade e utilização de recursos. Este estudo retrospetivo analisou todos os casos de jovens entre os 10 e os 18 anos admitidos numa unidade de cuidados intensivos pediátricos entre 2014 e 2024 após uma tentativa de suicídio. Foram identificados dezoito casos, maioritariamente do sexo feminino (72%), com idade média de 15,5 anos. Os métodos mais comuns foram a sobredosagem medicamentosa (56%) e o trauma major por salto de altura (39%). A maioria dos doentes necessitou de ventilação mecânica invasiva (89%), com uma média de 5,6 dias de internamento na UCIP e 29 dias de internamento hospitalar total, significativamente mais prolongados nos casos de trauma. Não se registaram óbitos, mas três pacientes desenvolveram sequelas graves. O conflito familiar, questões relacionadas com género/sexualidade e problemas escolares foram fatores precipitantes frequentes; apenas um jovem tinha registo de tentativa prévia de suicídio. Após a alta, 89% foram referenciados para seguimento psiquiátrico, com diagnósticos posteriores de depressão, ansiedade, perturbação de personalidade e consumo de substâncias. Estes resultados reforçam a necessidade de rastreio sistemático do risco de suicídio nos cuidados primários e nos serviços de urgência, de intervenções comunitárias e familiares, e de protocolos estruturados de acompanhamento pós-alta para prevenir recorrências e reduzir complicações a longo prazo.

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